Mais fundo do que duas braças

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Num barco tão grande, com tal vapor nas caldeiras, comecemos depressa a viagem ou perdemo-nos a meio do rio. Mark Twain: na gíria náutica do Mississípi (EUA), são duas braças de profundidade (3,65 metros); para o mundo, no entanto, é o nome que o ex-piloto de navios Samuel Clemens (1835-1910) escolheu para escrever.

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O peso de Mark Twain — uma paradoxal leveza entusiasmada — cai sobre os que olham pela primeira vez um desses gigantes coloridos de madeira e ferro, as pás cilíndricas removendo as águas turvas, o fumo e o vapor das chaminés. Aconteceu-me no porto antigo de Nova Orleães, e viajando pelo Missouri, há muito tempo, antes do brutal furacão Katrina, mas em semana de lamas e inundações. Tudo o que vi nesses dias, os troncos flutuantes, as florestas nas ilhotas, os casebres com negros à porta, me lembrava o que lera de Twain. E tudo o que Twain escreveu me lembrava o que estava a ver.

Só acontece com escritores invulgares: marcam o seu território para sempre. Por alguma razão, William Faulkner, a voz revolucionária do Sul, chamava a Twain o «pai fundador das letras americanas.»

No caso do rapazinho Tom Sawyer (personagem inventado, explicou ele, colando a sua infância às de dois outros amigos), pode-se escolher entre dezenas de aventuras hilariantes e assustadoras. Eu prefiro as páginas em que Tom, Huckleberry Finn e outro amigo fogem de casa para não voltarem (e para não serem castigados), passam dias escondidos numa minúscula ilha do Mississípi e, cansados, regressam a meio do seu próprio funeral, como fantasmas… Twain, com um lendário talento para ditos espirituosos, prenunciava assim, em romance, uma das suas frases mais repetidas. Quando leu num jornal sobre o seu falecimento, mandou ao diretor uma carta de grande educação: «As notícias sobre a minha morte foram bastante exageradas.»

Uma sabedoria que lhe vinha da experiência e de cantos secretos da sua alma. Obrigado a trabalhar cedo, como os irmãos, depois da morte prematura do pai, Twain foi tipógrafo, piloto de navios, jornalista, etc. É um dos mais curiosos exemplos de autodidata. Aproveitava os fins de semana para ler tudo nas bibliotecas públicas, alimentando um conhecimento vasto e raro, muito diferente da moral e da educação escolar do seu tempo. Por isso disse toda a vida: «Nunca deixes a tua escolarização interferir com a tua educação». Um escritor que respeita e entende o mundo da infância e da juventude, onde projeta uma comovente sinceridade. «A informação mais interessante vem das crianças, porque elas dizem tudo o que sabem e depois calam-se.»

Convicção que se descobre inteira na mais bela criação do escritor (e descrito como «O grande romance americano»): Huckleberry Finn autonomiza-se, admite que um tal Mr. Twain já contara algumas coisas sobre a sua vida e sobre a de Tom Sawyer, corretas ou nem tanto, e depois fala da sua vida, marcada pela morte da mãe e pela violência do seu pai alcoólico. Mais uma vez, fico preso a um episódio particular. Huck ajuda um escravo a fugir pelo rio, um negro a quem proibiram de estar com a sua amada, e que agora perseguem com cães, uma das clássicas misérias da escravatura. O que nos deixa sem palavras é a luta interior de Huck. O rapazinho foi ensinado a acreditar e a fazer o contrário do que faz. Pensa na pobre senhora que é dona do escravo, e que nunca fez mal a Huck para ele lhe retribuir daquela forma, ajudando a sua propriedade a fugir. Sente-se um criminoso e um ingrato. Chega a pensar em escrever uma carta a denunciar aos caçadores de escravos o sítio para onde vai Jim… Sabe que vai para o Inferno por um pecado tão grande. Mesmo assim, decide condenar-se eternamente: ir contra a lei é que está certo, no seu coração. Ajuda o pobre Jim até ao fim e, para seu espanto, descobre que são amigos. Uma das mais notáveis denúncias da exploração humana, escrita por um Mark Twain que ainda viu escravos nas plantações e nas cidades, em criança.

A fama de Twain foi enorme durante a vida. Amigo de políticos, artistas e da realeza europeia. E tudo começou com um pequeno salto de rã, ainda por cima falhado. Publicado em 1865 num jornal, o conto «A Famosa Rã Saltadora do Condado de Calaveras», ou simplesmente «A Rã Saltadora», deu-lhe fama imediata. Conta-nos o caso de um homem viciado em apostas de todo o género. Para verem a que ponto, um amigo diz-lhe que a sua mulher, que estivera às portas da morte, estava melhor, ao que o apostador responde: aposto contigo que vai morrer na mesma… Um dia, treina uma rã que ganha sempre as competições de saltos. Chega um desconhecido e, contra o que se esperava, ganha esta aposta: enchera a rã do apostador de chumbo de caçadeira. A forma de escrever de Twain é tão cómica que ele, anos depois, se deu ao trabalho de ler a versão francesa, feita sem qualquer brilho, e retraduziu-a para inglês, provando que o talento é tão importante como a história. A verdade é que a versão revertida do francês ainda faz rir mais, de tão má que fica.

Outro conto que mete um desconhecido é «O Homem que Corrompeu Hadleyburg». Não resisto a contar: uma terra moralmente superior a todas as outras está, afinal, cheia de mentirosos. Surge a hipótese de ganhar um baú de ouro se alguém relembrar uma frase dita em tempos por um viajante a alguém que o ajudara em privado. O problema é que todos os ‘notáveis’ são informados, por carta secreta, da mesma frase (incompleta), e todos vão dizer em público a mesma coisa… É um tratado sobre política suja.

O talento de Mark Twain não chegava aos negócios. Por duas ou três vezes arruinou a fortuna em projetos como uma máquina de imprimir que falhou com o súbito aparecimento do linótipo. Fez palestras pela Europa para pagar as dívidas. Nascido com o cometa Halley à vista, morreu, como desejava, no dia a seguir ao seu reaparecimento, sete décadas e meia depois. Os últimos anos de um dos maiores humoristas de sempre foram de grande depressão. Como dizia Twain: «Não gosto de me comprometer quanto a Céu e Inferno. Sabem, tenho amigos nos dois lugares.» Ainda mais simples: «O Céu pelo clima, o Inferno pela companhia.»

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