
No preciso momento da Passagem de Ano, é hábito comermos 12 passas de uva a que simbolicamente associamos 12 desejos para o novo ano. Em vésperas dos primeiros grandes eventos de apresentação das novidades e numa altura em que já conhecemos alguns modelos de 2014, desvelamos 12 desejos – 12 pensamentos que gostaríamos de ver concretizados nos próximos tempos.
No início de 2014, falámos na Espiral do Tempo do ano relojoeiro em perspetiva: abordámos as principais tendências, revimos eventos e comentámos as grandes novidades que fizeram de 2013 uma temporada relojoeira particularmente bem recheada (um texto que pode ler aqui). Agora, com o Salon International de la Haute Horlogerie (SIHH) ao virar da esquina e na perspetiva dos modelos que serão apresentados ao longo do primeiro trimestre de 2014, não arriscamos adivinhar o que está para vir – até porque alguns modelos têm já sido desvelados; vamos antes dar-nos ao luxo de revelar os nossos principais desejos relojoeiros para 2014:
1. Esperamos que as edições limitadas dedicadas ao ano chinês do cavalo não sejam muitas. Obviamente que sabemos que muitas estão para vir e muitas já estão aí; no entanto, gostaríamos de ver formas mais originais de agradar ao público chinês e, consequentemente, ao público mais generalizado. Por muito que se compreendam os motivos de tais criações, fica-se com a sensação de que depois de vermos tantas edições deste género, acabamos por nos abstrair do caráter artesanal da própria peça. O que é uma pena.
2. Aguardamos ansiosamente por novos modelos femininos que não se dediquem apenas à indicação das horas e das fases da Lua. Já chega de dizer que a indicação das fases da Lua é particularmente relacionada com o público feminino. Sabemos que talvez seja, mas não só. Gostaríamos de ver, por exemplo, mais modelos mecânicos cronográficos demarcados do conceito de relógio elegante, ou seja, gostaríamos de ver relógios femininos de assumida vocação desportiva: de maiores dimensões, com combinação arrojada de materiais, mas claramente femininos.

Master Ultra Thin Minute Repeater Flying Tourbillon © Jaeger-LeCoultre
3. Pelas novidades já desveladas, parece que os modelos ultra-planos estão para ficar. Nada a assinalar, principalmente quando estão cada vez mais associados a inovações técnicas fora de série. No entanto, gostaríamos de ver este tipo de modelos associados a maiores dimensões no que diz respeito ao diâmetro da caixa mantendo sempre uma boa ordem de proporções: ou seja, sem qualquer obsessão por recordes de ‘estreiteza’. Não estamos a dizer que é fácil ou se é efetivamente possível. Mas podemos desejar: mostradores mais abertos em relógios maiores e de reduzida espessura.
4. Relógios de mergulho: venham eles! Somos particularmente apaixonados por relógios mecânicos de mergulho e, com a atual panóplia de possibilidades ligadas aos tons da luminescência, queremos muito ver mais modelos pensados para as profundezas que sejam igualmente atraentes fora d’água. Não é necessário serem estanques até milhares de metros nem terem um design hiper-arrojado – afinal quem é que mergulha a tais profundidades? Pedimos apenas estilo q.b., funcionalidade e fiabilidade.
5. Desejamos, sinceramente, que se deixe de considerar os smartwatches como ameaças à relojoaria mecânica suíça. Sabemos que são conceitos absolutamente distintos que ultrapassam em larga medida a função de leitura das horas. Se os smartwatches vingarem, nada contra. Mas a relojoaria mecânica tem tudo para continuar o seu caminho de exclusividade num mundo que ainda privilegia peças de exceção, com história e com muito trabalho humano. Não falamos em exclusão, mas em convivência saudável. E já se sabe quais os verdadeiros relógios de culto…

A. Lange & Söhne Grand Lange 1 Lumen © A. Lange & Söhne
6. Um desejo mais concreto que parte também da redação: seria fantástico o lançamento de um modelo desportivo da A. Lange & Söhne, dando seguimento a lançamento de modelos mais contemporâneos como o Zeitwerk Luminous ou o Grand Lange 1 Lumen. Num momento em que a marca atravessa um dos seus mais fantásticos momentos no domínio da criação de complicações relojoeiras, seria interessante descobrir como a manufactura saxónia idealizaria um relógio eminentemente desportivo. F.P.Journe disse um dia que nunca faria relógios desportivos e a sua mudança de perspetiva levou ao lançamento da coleção Octa Sport… Podemos sonhar, certo?
7. São sempre bem recebidos relógios de caráter inovador, de estéticas industriais com design arrojado e futurista. Costumam ser os relojoeiros independentes a arriscar mais nesse aspeto. Com o cancelamento da Geneva Time Exhibition, este tipo de novidades fica adiado para março. Esperemos é que seja apenas e somente um adiamento. Não há nada como o equilíbrio e convivência saudável entre clássico, esperado, inovador, arrojado e surpreendente. Aqui, adoramos relógios que parecem de outro planeta.
8. O facto de apreciarmos relógios de outro planeta não significa que não tenhamos também um fraquinho por modelos de trabalho puro e artesanal. Felizmente, os mètiers d’art têm regressado em força e ultrapassam cada vez mais o domínio da decoração do mostrador. Gostaríamos que essa tendência se mantivesse e que fosse além da tendência, que perdurasse e que continuasse a conviver com todo o espírito de inovação mais do que comprovado dos tempos mais recentes. Relógios extraordinariamente belos enquanto verdadeiras obras artísticas.

HM5 RT © MB&F
9. Um desejo mais relacionado com o jornalismo especializado e o modo como as marcas apresentam as suas novidades: não é preciso arranjar manobras de diversão ou inventar narrativas para dar maior ênfase à apresentação de novos modelos. Um bom relógio fala por si sem ser preciso transformar os stands em boxes de Fórmula 1 ou em castelos de Camelot – e, já agora, não é preciso utilizar um tom óbvio e paternalista durante as apresentações.
10. Uma dica para os muitos produtores de cronógrafos: que tal começarem a utilizar mais ponteiros centrais para a cronometragem dos minutos em vez de os remeter ao inevitável submostrador de exíguas dimensões? É um ‘Ovo de Colombo’ simples e extremamente útil para que seja feita uma melhor leitura dos dados, bastando um ajuste técnico não excessivamente complicado para adaptar qualquer calibre ou módulo cronográfico
11. Jack Heuer teve recentemente um acidente de esqui (aos 81 anos!) e foi necessário cancelar o evento que apresentava oficialmente em Genebra a sua autobiografia (como vos contámos aqui); seria a sua última aparição pública e agora, estando hospitalizado, não se sabe se haverá uma outra oportunidade. Os nossos sinceros votos para que o ‘pai do cronógrafo desportivo’ se recomponha e que se disponibilize novamente a apadrinhar publicamente o livro que conta o tempo da sua vida.
12. Por último, um desejo muito português: como despedida e em memória de Eusébio por que não uma vénia ao nosso ‘king’ do futebol com uma homenagem de pulso em edição limitada? A marca só poderia ser uma: Franck Muller, claro, na senda dos anteriores modelos dedicados ao Sport Lisboa e Benfica que foram apadrinhados pelo próprio Eusébio.

Franck Muller Conquistador S.L. Benfica


