Feiras de exaltação relojoeira

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A primeira grande concentração anual da indústria relojoeira deu-se na terceira semana de janeiro com a realização da 23ª edição do Salon Internacional de la Haute Horlogerie, que arrastou consigo a realização de várias iniciativas paralelas em Genebra – desde o Geneva Time Exhibition até à World Presentation of Haute Horlogerie, passando por várias apresentações monomarca. Eis um primeiro rescaldo global, incluindo tendências positivas e narrativas questionáveis…

Miguel Seabra, em Genebra


 
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Ou seja, o ano está claramente dividido em dois principais polos relojoeiros, separados no tempo e no espaço entre Genebra (janeiro) e Basileia (habitualmente em março, este ano excecionalmente no final de abril). E, para além das grandes marcas do Salon Internacional de la Haute Horlogerie, que expõem exclusivamente em Genebra, nota-se que há cada vez mais companhias relojoeiras a mostrarem as suas novidades nas duas grandes cidades suíças. Como a TAG Heuer, que pelo terceiro ano consecutivo divide as suas coleções em duas fases, arrancando com a sua exibição própria em Genebra para depois apresentar o grosso da sua coleção em Baselworld.

 

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Jean-Christophe Babin foi o anfitrião da exibição ’50 Years of Carrera’ da TAG Heuer no Halle de Sécheron. © Miguel Seabra

 
Cada vez mais alto
Pois, a tal profecia Maia que pendia sobre as nossas cabeças como a espada de Damocles não se confirmou a 21 de dezembro e rapidamente se tornou na chacota da indústria relojoeira suíça, que até fechou o ano de 2012 a bater todos os recordes de exportação. Nos corredores da Palexpo (SIHH), do Bâtiment des Forces Motrices (GTE) e de Watchland (WPHH) tornou-se recorrente a piada do fim do mundo falhado a par dos votos de um bom ano, sobretudo relativamente a marcas que em 2013 cumpriam relevantes aniversários: os 180 anos da Jaeger-LeCoultre e os 50 anos do emblemático Carrera da TAG Heuer, que o fatalismo Maia não impediu que fossem celebrados.

 

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O ambiente tranquilo e sofisticado dos corredores do Salão Internacional da Alta Relojoaria. © Miguel Seabra

 
E houve mesmo muitos ‘sobreviventes’ da profecia a afluir a Genebra. As 16 marcas do seleto SIHH reuniram 13.000 visitantes de todos os cantos do globo (mais 3% do que no ano anterior) e foram acompanhadas por 1.200 jornalistas; as 35 marcas do GTE tiveram cerca de 5.000 visitas. Fora todas as restantes iniciativas.

 

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A relojoaria mecânica e complicada continua em crescendo: a alta relojoaria está cada vez mais alta © Jaeger-LeCoultre

 
O que foi imediatamente possível constatar em Genebra foi que a alta relojoaria está cada vez mais… alta. A elevação da cultura relojoeira mecânica e tradicional tem sido paulatina desde a retoma após os anos da crise do quartzo (meados da década de 70 e até mesmo à década de 90), mas ultimamente – e após alguma contenção nos anos da crise internacional entre 2008 e 2010 – as melhores casas relojoeiras têm-se sucedido na apresentação das obras-primas mais exclusivas e onerosas que levam a micromecânica aos píncaros. Há cada vez mais relógios a ultrapassar o milhão de euros exclusivamente graças às suas complicações mecânicas e não pelo seu peso joalheiro.

 

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Talvez ‘o relógio’ da semana genebrina: o Grand Complication da A. Lange & Söhne. Dois milhõezitos… © A. Lange & Söhne

 
E alguns dos modelos desvelados ultrapassaram mesmo o milhão e meio, com o Grand Complication da A. Lange & Söhne a atingir os dois milhões.

 
Tendência tripla
No meio de tanta efervescência genebrina gerada logo no dealbar do novo ano, sobressaíram as grandes tendências da alta relojoaria da atualidade – e a principal tem a ver com um movimento de reação já sentido a partir de 2009: o da insistência de marcas tradicionais em modelos simples ou cronógrafos de menor dimensão, dotados de um classicismo absoluto como contraponto aos modelos contemporâneos sobredimensionados que exalam uma maior tecnicidade estética e funcional.

 

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Três complexidades mecânicas tradicionais no invólucro moderno de um Royal Oak Offshore de mostrador esqueletizado: o Grande Complication foi a vedeta apresentada pela Audemars Piguet. © Miguel Seabra

 
Mas ambos os vetores coabitam tranquilamente. A velha máxima da compra de um único relógio para toda a vida está mais do que ultrapassada e enterrada, sendo quase que ‘exigidos’ modelos para diferentes exigências sociais – clássicos, pequenos e finos para ocasiões mais elegantes; contemporâneos, agressivos e maiores para situações mais desportivas; formais, de design avançado ou depurados para um ambiente mais fashionista.

 

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Uma diferente espécie de classicismo: o cronógrafo Nicolas Rieussec Rising Hours da Montblanc. © Miguel Seabra

 
Ou seja, quase que existem três polos antagónicos… sendo que o meio-termo parece existir apenas para aqueles que só querem um relógio!

 
Cerâmica que não é de Valadares
Outra tendência verificada incide sobre a cada vez maior aposta das casas relojoeiras na cerâmica ou suas variantes como material de eleição para modelos mais desportivos – seja na caixa, seja apenas na luneta. E em tons escurecidos, quando até há pouco se verificava sobretudo a aposta em aço tratado com PVD ou DLC para a obtenção da tal sofisticação negra tão cara aos estilistas contemporâneos.

 

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Entre muitos exemplares, um relógio que personifica a forte adesão à cerâmica em modelos de estilo militar ou desportivo por parte de várias marcas: o Panerai Submersible Ceramica. © Miguel Seabra

 
O paradoxal é que, sentindo-se que a Audemars Piguet abrandou nitidamente o investimento em modelos elaborados no seu carbono forjado em detrimento precisamente da cerâmica, a TAG Heuer lançou um Concept Chronograph feito num carbono mais avançado: o denominado Carbon Matrix.

 

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Novo material ultra-leve e ultra-resistente: o carbon matrix do Carrera Carbon 1887 Concept Chronograph da TAG Heuer. © TAG Heuer

 
Elegância fina
Desde 2009 e sobretudo nos dois últimos anos que se sente que as principais manufaturas e as casas de grande tradição não só reagiram à moda dos relógios exageradamente sobredimensionados como também piscaram o olho ao emergente e clássico mercado chinês com relógios elegantes, finos e muito inspirados no puro estilo dos anos 50 e 60.

 

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Paradigma de pureza e elegância: Master Ultra-Thin da Jaeger-LeCoultre anuncia recordes de espessura mínima. © Jaeger-LeCoultre

 
Fora do SIHH, essa tendência para os tamanhos delicados também se pôde sentir no WPHH, com o reforço das linhas Vintage da Franck Muller.

Mas atenção: o El Dorado atual da economia mundial parece estar a fechar as torneiras, já que as figuras do regime têm sido aconselhadas a não ostentar produtos de luxo e a própria televisão estatal proibiu a publicidade aos artigos de luxo.

 
Perpétuos & Turbilhões
Entre as complicações mais utilizadas, o cronógrafo (mais acessível) mantém-se em primeiro lugar – por vezes espetacularmente conjugados com turbilhões, mas este ano algumas das mais relevantes peças desveladas associaram sobretudo o cronógrafo rattrapante a calendários perpétuos e complicações acústicas (grande e petite sonnerie; repetição minutos).

 

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Conjugação recorrente no SIHH: a combinação de cronógrafo rattrapante com calendário perpétuo. © A. Lange & Söhne

 
Claro que o turbilhão mantém-se como a complicação mais emblemática da alta relojoaria e é exaltado aos pares na Roger Dubuis ou na Greubel Forsey, mas qualquer Grande & Pequena Sonnerie ou Repetição Minutos oferece uma dimensão acústica e exige um nível de especialização ainda maior que lhe confere mais exclusividade.

 

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Exercícios de estilo com turbilhões múltiplos: a Greubel Forsey e a Roger Dubuis esmeraram-se nesse campo. © Greubel Forsey

 
De resto, as complicações astronómicas mantêm-se muito populares, desde a simples fase da lua até aos calendários anuais ou perpétuos e ainda com projeções celestes. A Van Cleef & Arpels continua um caso à parte, com as suas complicações poéticas…

 
O essencial e as narrativas
O que foi também possível constatar uma vez mais no SIHH foi a evidente separação entre as marcas que se cingem ao essencial para deixar a qualidade do seu produto falar e aquelas que parecem necessitar permanentemente de narrativas ou manobras de diversão para chamar a atenção da imprensa e capturar o imaginário de clientes/aficionados.

 

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O espaço da Richard Mille: futurista mas incontornavelmente essencial e técnico. © Miguel Seabra

 
Num polo estão a maioria das marcas do SIHH — desde a A. Lange & Söhne, a Jaeger-LeCoultre e a Audemars Piguet (que pela primeira vez nem organizou uma festa) até a Cartier, enquanto a Vacheron Constantin nem sequer revelou à imprensa qualquer novo modelo masculino e centrou as novidades na vertente feminina; no outro estão três marcas que, curiosamente, funcionam sob a supervisão de Georges Kern.

 

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Stand da IWC: como se fosse uma box de Formula 1, mas cheio de gente e VIPs a circular. © Miguel Seabra

 
A IWC, a marca pela qual Georges Kern dá mais a cara como CEO, cria sempre um espetáculo à parte com um tema anual que em 2013 foi centrado no universo automobilístico e na sua nova associação à escuderia Mercedes de Formula 1 (o stand foi o mais comentado e a festa reuniu a habitual horda de embaixadores associados à Academia Laureus, incluindo Luís Figo); a Baume et Mercier continua a insistir no espírito chique e Kennedyano dos Hamptons com decoração a condizer; e a Roger Dubuis talvez tenha ido longe demais…

 

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Ambiente fabulástico na Roger Dubuis, com o mestre transformado em photo opportunity. © Miguel Seabra

 
Com um universo neo-medieval ao melhor/pior estilo Harry Potter, a Roger Dubuis pôs a circular uma princesa, um sujeito com uma enorme águia no braço (e que, como não podia deixar de ser, conhecia a águia Victoria do Benfica!) e o próprio mestre relojoeiro Roger Dubuis para posar para a fotografia junto deles. O verdadeiro fundador e mentor do crescimento da marca até à sua venda ao grupo Richemont, o português Carlos Dias, foi completamente apagado da narrativa…

 
Emoção, paixão, dinheirão
Em suma, a alta relojoaria mecânica continua viva e criativa pela mão das novas marcas independentes e sobretudo das principais casas relojoeiras. Mas a alta relojoaria, custando um dinheirão, continua sobretudo a gerar emoção e paixão. Enquanto assim for, as grandes feiras do sector continuarão a ser polos… de atração!

 

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Às enormes filas para o transporte de volta ao hotel no final de cada jornada no SIHH. (C) Miguel Seabra

 

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