
Por ocasião da apresentação do Grand Lange 1 Lumen, a Espiral do Tempo regressou a Dresden e a Glashütte. Relato de uma viagem no tempo, de Ferdinand Adolph Lange a Walter Lange e às desventuras de uma região carregada de cicatrizes mas que pouco a pouco recupera o seu esplendor imperial.

A famosa Ópera do arquiteto Gottfried Semper, histórica sala de espetáculos de Dresden onde Richard Wagner estreava as suas composições épicas. © Miguel Seabra
O paralelismo entre Dresden e a A. Lange & Söhne é incontornável, se bem que a manufatura relojoeira tenha recuperado o seu esplendor mais depressa do que a cidade. Ainda se nota que o tempo pareceu parar durante décadas em toda a região, asfixiada pelo regime comunista ao longo de 40 anos depois do arraso quase criminoso quando a Segunda Guerra Mundial já estava praticamente no fim; no entanto, após a queda do Muro de Berlim e consequente reunificação, Dresden tem vindo paulatinamente e cada vez mais rapidamente a recuperar todo o seu esplendor de antiga capital não só estatal mas também da arte e cultura germânicas – tal como a manufatura A. Lange & Söhne, sedeada na vizinha localidade de Glashütte, recuperou toda a sua grandiosidade para se tornar na única entidade de alta relojoaria capaz de rivalizar com as melhores manufaturas suíças.

A imponente Frauenkirche, que permaneceu em ruínas durante as quatro décadas de vigência comunista até ser reerguida com mais de 100 milhões de euros no início da década passada. © Miguel Seabra
É sempre bom regressar a Dresden, sobretudo porque a cada nova visita os progressos são notórios – desde a recuperação dos monumentos históricos (como a majestosa Frauenkirche, reerguida com mais de 100 milhões de euros) à criação de infrastruturas modernas (como a Fábrica Transparente dos VW Phaeton), passando pelo próprio estado de espírito de uma população mais alegre que vai aliviando a Angst das anteriores gerações marcadas pelo massacre da guerra e pelo estéril período político que se seguiu. E também é sempre bom reencontrar colegas da imprensa internacional especializada e os responsáveis da A. Lange & Söhne, como voltou a suceder nos dias 4 a 6 de dezembro durante a já tradicional reunião anual pré-Salon International de la Haute Horlogerie promovida pela marca germânica de alta-relojoaria.
Da asfixia ao topo do luxo
Depois de um primeiro passeio vespertino a pé pelo centro de Dresden (com visita aos mercados de Natal e à boutique da A. Lange & Söhne) e um jantar de boas vindas, no qual a Espiral do Tempo foi convidada para a mesa do CEO da marca Wilhelm Schmid, o dia seguinte foi reservado para uma volta a Dresden antes das apresentações e solenidades a partir do fim da tarde.

Na Boutique da A. Lange & Söhne no centro de Dresden, perto da Frauenkirche, uma réplica do relógio de cinco minutos de Johann Christian Friedrich Gutkaes na Ópera de Semper que inspirou a data grande dos primeiros relógios Lange da nova era e também o recente Zeitwerk. © Miguel Seabra
O périplo turístico começou com uma visita ao Panometer e à projeção fiel da cidade de Dresden no século XIX numa vista de 360 graus a partir de uma torre central. Depois da visita virtual passou-se a uma visita real pela cidade onde se pode constatar a dicotomia entre os tempos gloriosos da Saxónia dominada por Augusto, O Forte (que na verdade era O Gordo, mas suficientemente viril para ter 346 filhos!) e o purgatório de quatro décadas de comunismo, com as feridas da Segunda Guerra Mundial sempre bem abertas.

O palácio rococó Zwinger, com os seus largos paços reais, continua em (quase permanente) reconstrução. A pedra usada exige constante reposição. © Miguel Seabra
O regime da Alemanha Democrática não teve meios para recuperar a monumentalidade de uma cidade que foi simplesmente arrasada por bombardeamentos aéreos nos derradeiros dias do conflito, quando já se sabia que o Terceiro Reich iria capitular. A fisionomia da cidade e em especial do seu centro mudou muito, mantendo-se com grandes áreas abertas onde anteriormente existia uma grande densidade habitacional; os locais continuam a debater-se se devem ou não manter os sinais da asfixia comunista através de edifícios com a característica arquitetura do período, mas entretanto vão recuperando todos os principais marcos históricos – desde o Zwinger (o palácio real) até à emblemática Frauenkirche (catedral), passando pela Ópera Semper e sempre com a sua arquitetura assente em pedras que escurecem com o ar da zona. E não deixa de ser irónico que a marca de luxo eleita repetidamente como a melhor da Alemanha nos últimos anos venha de uma zona que estava tão depauperada – e essa marca é precisamente a A. Lange & Söhne.
Dia 25 iluminado
Ao princípio da noite, a comitiva seguiu para uma mansão moderna numa encosta com vista para a Dresden e deu-se a apresentação do Grand Lange 1 Lumen – a primeira (e por enquanto única) novidade da marca, que irá desvelar o resto das novidades de 2013 na próxima edição do Salon International de la Haute Horlogerie, em janeiro.

Enquanto os colegas ficavam maravilhados e de boca aberta, a Espiral do Tempo colocou-o no pulso: eis o primeiro wristshot mundial do Grand Lange 1 Lumen. © Miguel Seabra
O Grand Lange 1 Lumen, editado numa série limitada de 200 exemplares em platina com um preço à volta de 59 mil euros, é sobretudo uma versão estilisticamente mais contemporânea do ex-libris Lange 1 (mais precisamente o Grand Lange 1 lançado há um ano) que assenta num mostrador semi-opaco/semi-transparente – que coloca em destaque a luminescência da famosa data sobredimensionada inspirada no relógio da Ópera Semper e que esteve intimamente relacionada com a renascença da marca.

Por razões históricas e estilísticas, o ’25′ é o número fétiche da marca e está sempre omnipresente – até no fundo da piscina da Via Villa Lapis. © Miguel Seabra
Por todo o lado se via o número 25 em destaque. Nas paredes da Via Villa Lápis, no fundo da piscina, nas janelas para a data dos vários relógios A. Lange & Söhne expostos onde quer que seja e no próprio catálogo, nos centros de mesa do jantar de gala que se seguiu no palacete Albrechtsberg. Até nas ementas. E no Grand Lange 1 Lumen, claro.

O mostrador do Grand Lange 1 Lumen assume diversas tonalidades mediante a incidência da luz devido ao seu mostrador translúcido (o vidro de safira que serve de mostrador é tingido). © Miguel Seabra
Porquê? Porque quando a A. Lange & Söhne ressuscitou em 1994, com o surpreendente Lange 1 a dar o mote para devolver a lendária manufatura germânica ao cume da alta relojoaria (após ter sido anulada durante parte do século XX por duas guerras mundiais e opções comunistas questionáveis), a conferência de imprensa decorreu no dia 24 de outubro e os relógios tinham o dia 25 para condizerem com a publicação das suas fotografias no dia seguinte.
E também porque os algarismos 2 e 5 enchem bem a revolucionária janela dupla para a data sobredimensionada tão característica da A. Lange & Söhne, tal como o 5 é uma espécie de 2 invertido e os dois números compõem juntos uma simetria que fica bem no inconfundível mostrador descentrado do Lange 1.

Sempre brincalhão, o diretor-técnico Antonie de Haas disserta sobre o novo Grand Lange 1 Lumen. Nota: a fotografia está tremida porque ele é muito irrequieto (desculpas…)! © Miguel Seabra
O jantar serviu também para divulgar as obras de beneficência da A. Lange & Söhne e indicar o nome dos vencedores do F. A. Lange Watchmaking Excellence Award 2012, que teve pela primeira vez dois finalistas em vez de um único vencedor. O prémio foi repartido pelo americano Bennie R. L. Hernandez (24 anos), do Texas, e o alemão Daniel Neugebauer (29 anos), de Munique, que receberam cada um 5.000 euros para premiar os seus mecanismos de data. Foram inicialmente convidadas 36 escolas de relojoaria em todo o mundo, com oito jovens relojoeiros a qualificarem-se para uma fase final que decorreu na Lange Watchmaking School e na qual tinham de ‘inventar’ uma indicação da data para um mecanismo ETA 6498.
Renovação em Glashütte
O dia seguinte estava reservado para a visita a Glashütte, pequenal localidade a 30 quilómetros de Dresden onde Ferdinand Adolph Lange fundou a A. Lange & Söhne em 1845.
A A. Lange & Söhne desde logo ganhou a reputação de criar sublimes relógios de bolso e cronómetros de marinha infalíveis, mas ao longo do século XX acabou transformada numa empresa de instrumentos de precisão durante as duas Guerras Mundiais e, após ter sido bombardeada precisamente no último dia do segundo conflito, foi incluída numa grande cooperativa estatal durante a vigência comunista da Alemanha de Leste.
A reunificação permitiu a Walter Lange, neto do fundador, regressar às origens para recuperar o património familiar e transformá-lo numa das mais prestigiadas manufaturas da atualidade com relógios como o incontornável Lange 1 mas também os cronógrafos Datograph e Double Split ou os excecionais modelos ‘Pour Le Mérite’ que se incluem no panteão da relojoaria superlativa, provando que os relógios de Glashütte estão ao nível das melhores criações suíças!

Zeitwerk em ouro rosa com mostrador argenté e janelas digitais (horas, minutos) inspiradas no relógio da Ópera de Semper: qualquer relógio A. Lange & Söhne é um sonho para os aficionados da bela relojoaria. © Miguel Seabra
A renascida A. Lange & Söhne foi a locomotiva que fez nascer como cogumelos outras marcas relojoeiras em Glashütte, se bem que de outro nível. E as instalações da manufatura não param de crescer, espalhadas por vários edifícios e mais alguns outros projetados.
E, no regresso a casa, a omnipresença de um grande anúncio luminoso à entrada do aeroporto de Dresden que nos faz despedir da capital da Saxónia com nostalgia e água na boca — e a mim, particularmente, já que o Zeitwerk Striking Time (com um gongo que assinala o passar da hora) é o meu relógio preferido da A. Lange & Söhne:

Ícones de Dresden: a Frauenkirche de Bahr, a Opera de Semper e os relógios da A. Lange & Söhne — no caso o excelente Zeitwerk Striking Time. © Miguel Seabra
Pena é que, pelo terceiro ano consecutivo, o mau tempo dificultasse a viagem de regresso a Portugal — desta feita fiquei retido com o colega (e colunista da Espiral do Tempo) Carlos Torres em Frankfurt. Não importa: para o ano quero mais e hei-de voltar a Dresden, uma cidade com um fado muito próprio, sempre que possível! Ah… uma nota final alusiva ao nome Lumen da nova versão do Grand Lange 1: não, não foi inspirado no nome da namorada de Dexter numa das temporadas da série. É uma palavra do latim relacionada com… luminescência. Ou será que Antonie de Haas é um fervoroso aficionado da série?
Parte I da reportagem: E o Lange 1 deu à luz o Lumen
Parte III da reportagem: Apontamentos panorâmicos de Dresden








