E o Lange 1 deu à luz o Lumen

 
A A. Lange & Söhne acabou de desvelar a sua primeira grande novidade de 2013: uma surpreendente versão contemporânea do seu ex-libris Lange 1, dotada de um mostrador semi-opaco/semi-transparente que coloca em destaque a luminescência da sua emblemática data grande. O enviado-especial da Espiral do Tempo a Dresden e a Glashütte conta como a manufatura saxónica deu à luz o Grand Lange 1 Lumen.

 

Sofisticação técnica e estílistica: o Lumen leva mais longe o ex-libris da Lange & Söhne. © A. Lange & Söhne

 
A manufatura A. Lange & Söhne parece mesmo ser a única entidade de alta relojoaria capaz de rivalizar em reputação com as melhores manufaturas suíças. E continua a prová-lo todos os anos, desta feita mais através de um excelente exercício estilístico do que propriamente graças a um novo prodígio de técnica. Esse setor deverá estar reservado para o próximo Salon International de la Haute Horlogerie no início da segunda quinzena de janeiro, em Genebra; para já, a única novidade desvelada e alusiva ao próximo ano tem por nome Grand Lange 1 Lumen.

 

No pulso, o Lange Zeitwerk Luminous que lançou a ideia do Grand Lange 1 Lumen (atrás). © Miguel Seabra

 
Tendo por inspiração o Zeitwerk Luminous (de cognome ‘Fantasma’), a A. Lange & Söhne reinventou o Lange 1 para apresentar um relógio em platina limitado a 200 exemplares que passa por ser uma soberba versão contemporânea do seu mais emblemático modelo – e o resultado é perfeito, já que se trata de relógio moderno sem perder o ADN que é tão característico da histórica companhia saxónica. O preço adequa-se à nobreza de uma tiragem limitada com o selo da A. Lange & Söhne: cerca de 59 mil euros, o que até nem é muito caro comparativamente com as centenas de milhar de euros necessárias para adquirir as peças mais complicadas da marca com a chancela ‘Pour le Mérite’.

 
Um relógio marcante
A admirável coleção contemporânea da A. Lange & Söhne arrancou em 1994 precisamente tendo como pilar o Lange 1, que então deu o mote para devolver a lendária manufatura germânica ao topo da mais alta relojoaria – após ter sido anulada durante parte do século XX por duas guerras mundiais e opções comunistas questionáveis.

 

 
Fundada por Ferdinand Adolph Lange em 1845 na pequena localidade germânica de Glashütte, perto de Dresden, a A. Lange & Söhne desde cedo ganhou a reputação de criar sublimes relógios de bolso e cronómetros de marinha infalíveis – enquanto se tornava na marca preferida do Kaiser Guilherme II e do Sultão Abdul Hamid II. Transformada numa empresa de instrumentos de precisão durante as duas Guerras Mundiais e bombardeada precisamente no último dia do segundo grande conflito, a A. Lange & Söhne foi depois incluída numa grande cooperativa estatal (a GUB: Glashütte Uhren Betrieb) destinada a fazer relógios baratuchos para o povo durante a vigência comunista da Alemanha de Leste; a reunificação permitiu a Walter Lange, neto do fundador, regressar às origens para recuperar o património familiar e transformá-lo numa das mais prestigiadas manufaturas graças a fabulosas criações que se tornaram ícones da cultura relojoeira contemporânea – a começar pelo Lange 1, atualmente declinado em múltiplas versões e tamanhos diferentes no catálogo da marca.

 
Semi-transparência
Apresentado pelo CEO da marca Wilhelm Schmid e pelo diretor de desenvolvimento de produto Antonie de Haas a um grupo seleto de jornalistas numa mansão – a Villa Via Lapis – localizada numa das colinas que ladeiam Dresden, o novo Grand Lange 1 Lumen é uma edição limitada que esgotará seguramente num ápice todos os 200 exemplares da tiragem. A equipa técnica liderada por Antonie de Haas e Tino Bobe baseou-se no novo calibre desvelado em 2011 para dotar o Grand Lange 1 de uma engenhosa solução para o mostrador que permite replicar a semi-transparência do Zeitwerk Luminous e colocar em evidência a dupla janela para a data grande que surpreendeu o mundo relojoeiro aquando do relançamento da marca em 2004.

 

Wilhelm Schmid na conferência de imprensa de apresentação do Grand Lange 1 Lumen. © Miguel Seabra

 
A par da grande data, todos os restantes códigos estéticos do Lange 1 original mantêm-se – desde o mostrador assimétrico ou a indicação de reserva de corda até à arquitetura da caixa, que apresenta o mesmo diâmetro da versão Grand Lange 1 apresentada em 2011: 40.9 mm (o Lange 1 clássico de 2004 tem 38,5 mm). O revolucionário sistema de grande data que está normalmente escondido debaixo do mostrador surge em discreta evidência no Grand Lange 1 Lumen graças ao mostrador parcialmente semi-transparente (nem é totalmente opaco nem demasiado transparente) e à luminescência que lhe dá o nome (lumen é a correspondente palavra em latim). Só o anel no perímetro do mostrador e os submostradores são em prata pintada a preto, em contraste perfeito com o vidro de safira escurecida que permite entrever a parte superior do calibre de corda manual L095.2 (cuja parte posterior pode ser apreciada em toda a sua beleza decorativa através do fundo transparente).

 
A cruz e a película
O desafio consistia em assegurar uma máxima luminosidade para o sistema de data grande mas que essa luminescência não transbordasse para além do estritamente necessário. A cruz da janela das dezenas (branco, 1, 2 e 3) foi fácil de resolver, sendo construída numa placa luminescente; o problema residia no disco das unidades – e a solução foi fazê-lo de maneira transparente, em vidro, com os algarismos pintados a preto que rodam sobre uma pequena plataforma luminescente. Ou seja: uma solução simples que se revela um autêntico Ovo de Colombo.

 

Pormenor do mecanismo da data luminescente do Grand Lange 1 Lumen. © A. Lange & Söhne

 
As secções do vidro de safira do mostrador são tratadas com um filtro especial que bloqueia a maior parte do espectro visível de luz – mas como para o espectro ultra-violeta invisível da luz essa película não representa uma barreira, os raios ultra-violetas conseguem passar para ‘tocar’ nas superfícies tratadas com luminescência e deixá-las em evidência, especialmente em condições de luz mais precárias.

 

O primeiro wristshot do Grand Lange 1 Lumen foi da Espiral; à direita: Antonie de Haas. (C) Carlos Torres

 
Após a apresentação feita na Villa Via Lapis, o grupo passou ao palacete Albrechtsberg para um jantar de gala que também incluíu a entrega dos prémios da bolsa instaurada pela A. Lange & Söhne para jovens relojoeiros – e a reportagem mais específica sobre essa parte social e a visita à sede da Manufatura em Glashütte será feita num próximo post. Quanto ao Grand Lange 1 Lumen, fica desde já o veredicto: trata-se de um relógio com carisma que é extremamente apelativo, sobretudo para colecionadores e para uma clientela à procura de um visual um pouco mais contemporâneo. Quem quer que seja vai ter de se apressar: os 200 exemplares vão desaparecer num ápice!

 

O Grand Lange 1 Lumen a iluminar o exterior do palacete Albrechtsberg. © Miguel Seabra

Parte II da reportagem: Viagem no tempo de Dresden a Glashütte

Parte III da reportagem: Apontamentos panorâmicos de Dresden

 

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